IA reduz custos no Hirota e pode gerar economia de até 30% em dois anos
Após sete meses de implantação, a tecnologia reduziu entre 5% e 10% a necessidade de mão de obra e resultou em uma economia de 20% em processos de orçamento e compras, de acordo com Francisco Hirota (foto), CEO da rede
Enquanto parte do varejo ainda discute como incorporar inteligência artificial (IA) aos negócios, a rede de supermercados Hirota já contabiliza resultados concretos.
Após sete meses de implantação da tecnologia, a empresa reduziu entre 5% e 10% a necessidade de mão de obra em atividades administrativas, economizou cerca de 20% em processos de compras e projeta cortar até 30% dos custos operacionais em dois anos.
Atividades que demoravam um dia para serem concluídas, como a preparação de apresentações e análises de dados, hoje estão prontas em cerca de 30 minutos.
“Fomos convidados por empresas de tecnologia nos Estados Unidos para conhecer IA. Voltei para o Brasil em janeiro convencido de que a ferramenta não é só para executivos. O faxineiro tem de ser treinado para usar IA”, afirma Francisco Hirota, CEO do grupo.
A rede, que completa 54 anos neste mês, adotou o Gemini Enterprise, do Google, e iniciou um processo de capacitação dos colaboradores, coordenado pela diretoria de tecnologia.
“Antes havia muito achismo. A IA consegue mostrar que determinado produto está sendo produzido ou comprado acima da demanda e indica onde está o desperdício”, afirma.
A quebra da empresa caiu de 2,4% para 2,2% do faturamento em cerca de sete meses, uma redução de aproximadamente 10%.
A tecnologia também passou a ser usada na prevenção de perdas.
Nas unidades Hirota em Casa, em condomínios, a IA identifica imagens suspeitas e direciona a análise da equipe de segurança, reduzindo o tempo de resposta aos casos de furto.
O executivo estima que a ferramenta possa reduzir os custos da empresa em cerca de 15% em um ano e em até 30% em dois anos, considerando todas as áreas administrativas.
O principal diferencial no futuro do varejo, diz Francisco, será a capacidade das empresas e dos profissionais de utilizar a ferramenta.
“A IA responde para quem sabe fazer perguntas. A diferença entre quem sabe mais e quem sabe menos vai aumentar muito.”
Robôs humanoides
A combinação entre inteligência artificial, automação e robôs humanoides, diz, será essencial para enfrentar desafios como escassez de mão de obra e aumento de custos.
Francisco viajará para a China no início de 2027 para conhecer tecnologias e negociar a compra de robôs humanoides para as lojas. Eles assumiriam atividades repetitivas, como reposição de estoque e movimentação de mercadorias.
Para os próximos anos, ele aponta a expansão do digital como uma das principais tendências do setor, embora avalie que as vendas online não substituirão totalmente as lojas físicas.
De acordo com ele, o supermercado continuará sendo um espaço de experiência, relacionamento e conveniência para o consumidor.
Cenário
Apesar do avanço da tecnologia na empresa e no setor, Francisco afirma que o cenário para o varejo alimentar continua desafiador.
Fatores como o envelhecimento da população, a expansão do crédito consignado, o avanço das apostas esportivas (bets) e o uso de canetas emagrecedoras, diz, estão reduzindo o consumo de alimentos.
“O consumidor não está comprando menos, mas distribuindo seu orçamento entre um número maior de canais e categorias.”
Ainda assim, diz, a rede Hirota cresce mais do que o setor, impulsionada pela diversificação de negócios.
Enquanto o grupo cresceu cerca de 8,5% nos primeiros sete meses deste ano sobre igual período de 2025, formatos como Hirota Express cresceram aproximadamente 14%, as lojas de condomínio, cerca de 12%, e a operação Hirota Food, voltada para refeições prontas, 15%.
De acordo com Francisco, o desempenho reflete a concentração de investimentos em segmentos de maior demanda, como açougue, bebidas e alimentação pronta, além da migração de consumidores de restaurantes para refeições vendidas em supermercados.
“Estamos acompanhando as mudanças do padrão de consumo.”
Uma prática da rede, em todas as lojas, é fazer pesquisas com a clientela ao vivo e também por e-mail para identificar preferências de produtos e serviços.
Um exemplo foi o aumento da procura e, como consequência, da importação de produtos sul-coreanos devido ao sucesso dos doramas, como são chamadas as séries produzidas na Ásia.
Expansão
A rede pretende manter o ritmo de expansão das lojas de proximidade e do modelo de conveniência, acompanhando mudanças nos hábitos de consumo.
O formato Hirota em Casa, que atende condomínios, deve continuar crescendo em cerca de 40 unidades por ano, enquanto o Hirota Office Express expande cerca de 10 lojas anualmente.
Atualmente, a rede conta com cerca de 180 unidades Hirota em Casa e 26 lojas Office Express. No caso dos supermercados, hoje com 18 lojas, a expectativa é de expansão mais cautelosa.
O executivo também falou de temas que preocupam o varejo, como reforma tributária, escassez de mão de obra e mudanças no comportamento do consumidor.
Reforma tributária
Segundo Francisco, o cronograma da reforma tributária poderá sofrer atrasos devido à complexidade operacional do novo sistema. Muitas empresas ainda não têm conhecimento dos impactos e não estão se preparando adequadamente para as novas regras tributárias.
Com o novo modelo, empresas poderão ter de pagar impostos imediatamente, enquanto créditos acumulados serão aproveitados de forma gradual.
Os supermercados trabalham com lucro líquido próximo de 2,5%, o que limita a capacidade de absorver custos adicionais. Isso deve acelerar um processo de consolidação no varejo.
Entidades do setor, como associações e sindicatos, devem atuar junto ao governo para buscar medidas que reduzam os impactos da transição, diz o executivo da rede.
Mercado virou ‘rouba-monte’
O mercado de supermercados já está muito ocupado em São Paulo. Em muitos bairros existem cinco ou seis redes disputando o mesmo consumidor.
O varejo virou, portanto, um ‘rouba-monte’, diz Francisco. Para uma empresa crescer em mercados maduros, como São Paulo, muitas vezes, ela precisa conquistar o cliente do concorrente.
Por isso, o grupo mantém uma estratégia de expansão cautelosa, concentrada em formatos menores e mais próximos do consumidor.
Apagão de mão de obra
Estamos com cerca de 300 vagas abertas em todas as áreas. Estão faltando quase dez funcionários por loja. Estamos contratando empresas especializadas para nos ajudar.
O grande problema do Brasil é o assistencialismo em excesso, afirma o executivo do Hirota. E a percepção que se tem hoje é que ninguém quer ser empregado. E aí as pessoas vão para as plataformas digitais, Uber, iFood.
Todas essas questões estão fazendo com que a população mude a cabeça. E ainda tem a questão do trabalho aos domingos. Não vejo outra solução senão os robôs humanoides.
Por isso é que estou indo para China para ver como seriam esses robôs para descarregar mercadorias. Um robô que custava US$ 30 mil daqui a pouco vai custar US$ 10 mil.
Obrigatoriamente, isso vai virar tendência nos supermercados. Metade dos funcionários não vai ser mais necessária. O self-checkout também deve expandir.
Escala de trabalho 5X2
A discussão agora é inoportuna. É um assunto que precisa ser muito discutido, não pode se transformar em uma questão eleitoreira.
Com a escala 5X2, a empresa consegue fazer uma redistribuição. O problema maior é a redução de 44 para 40 horas semanais. A empresa vai precisar de 10% mais mão de obra, com impacto em custo e preço. Hoje, temos 2.100 empregados.
Pretendo visitar a China no início do ano que vem para avaliar até que ponto os robôs humanoides conseguem resolver questões operacionais nos supermercados, principalmente em atividades repetitivas, como estoque e abastecimento.
As tarefas que exigem percepção e decisão ainda dependerão de trabalhadores.
Fechamento de lojas aos domingos e feriados
Sempre fui contra a abertura de lojas aos domingos. Somos uma empresa cristã, que preserva a fé e a família.
Quando o Walmart chegou ao Brasil, que abria aos domingos, todos tiveram de se adaptar.
Agora o melhor é todo mundo fechar no feriado e aos domingos, assim, o consumidor compra um dia antes ou um dia depois. O impacto no faturamento seria zero.
Se outras lojas ficarem abertas, nós deveremos fazer um escalonamento aos domingos. Uma loja fecha às 14h, outra às 16h.
Se o Hirota não abre e o Pão de Açúcar abre, perdemos vendas.
Saúde e bem-estar
Além da tecnologia e dos novos formatos, estamos nos preparando para um reposicionamento estratégico baseado no conceito de ‘saúde para o corpo, saúde para a alma e serenidade do coração’.
A proposta envolve ampliar a curadoria de produtos, fortalecer serviços de orientação nutricional e transformar o supermercado em um parceiro de qualidade de vida.
Tudo isso porque o consumidor busca cada vez mais soluções, e não apenas produtos.
O reposicionamento acompanha a expansão das categorias de alimentação saudável e refeições prontas, que estão entre as apostas de crescimento da rede.
IMAGEM: Fátima Fernandes/DC


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